Choques elétricos, inteligência artificial e a corrida contra a dor: estudo sugere que acupuntura pode ir além do alívio dos sintomas no joelho
Ensaio clínico com 480 pacientes em seis hospitais chineses aponta melhora expressiva em dor e mobilidade, enquanto análises por inteligência artificial indicam sinais iniciais de proteção da cartilagem — uma fronteira ainda sem terapias aprovadas

Imagem: Reprodução
A osteoartrite do joelho foi tratada como uma equação clínica frustrante: aliviar a dor, reduzir limitações e aceitar que a deterioração estrutural da articulação continuaria avançando. A doença, uma das principais causas globais de incapacidade entre adultos mais velhos, afeta milhões de pessoas e ainda não possui medicamentos aprovados capazes de alterar seu curso biológico. O tratamento permanece centrado em anti-inflamatórios, fisioterapia, perda de peso e, nos casos mais severos, substituição cirúrgica da articulação.
Agora, um estudo multicêntrico publicado nesta sexta-feira (22), na revista científica eClinicalMedicine, apresenta evidências que podem reabrir uma discussão antiga da medicina: a possibilidade de que a eletroacupuntura não apenas alivie sintomas, mas também interfira em mecanismos biológicos ligados à progressão da doença.
O trabalho reuniu pesquisadores de instituições chinesas lideradas pelo Longhua Hospital, Shanghai University of Traditional Chinese Medicine, com participação de seis hospitais de Xangai e especialistas em epidemiologia, ortopedia, inteligência artificial e imagem médica. Entre os autores responsáveis estão Yongjun Wang e Qianqian Liang.
Os resultados vieram de um ensaio clínico randomizado envolvendo 480 pacientes entre 50 e 75 anos com osteoartrite moderada do joelho. Os participantes foram distribuídos em dois grupos: um recebeu eletroacupuntura real; o outro, uma versão simulada, desenhada para reproduzir a experiência terapêutica sem inserção efetiva das agulhas. O tratamento ocorreu três vezes por semana durante seis semanas, seguido de 30 semanas de acompanhamento.
Os números chamaram atenção
Na principal medida clínica utilizada — o índice WOMAC, amplamente empregado para avaliar dor, rigidez e função física — os pacientes tratados com eletroacupuntura apresentaram redução média de 65,35 pontos, enquanto o grupo controle registrou melhora de 24,76 pontos. A diferença entre os grupos foi de 40,56 pontos, com tamanho de efeito estatístico considerado elevado (Cohen d = 1,21).
Mais de 92% dos pacientes submetidos à técnica atingiram o limiar definido como melhora clinicamente relevante, comparados a cerca de 68% do grupo controle.
Os benefícios apareceram em praticamente todas as métricas avaliadas: dor, rigidez, mobilidade e desempenho físico durante testes de caminhada. O estudo também registrou manutenção dos efeitos até o fim do acompanhamento de 30 semanas.
Mas a descoberta que despertou maior curiosidade dos pesquisadores surgiu em outra frente: imagens de ressonância magnética analisadas por inteligência artificial.
Em geral, estudos sobre osteoartrite medem o impacto terapêutico a partir da percepção subjetiva de dor. Neste caso, os pesquisadores utilizaram um sistema automatizado baseado em aprendizado profundo chamado STRR-Net para detectar alterações sutis na articulação. O algoritmo realizou segmentação detalhada da cartilagem, do tecido adiposo infrapatelar e de marcadores associados à inflamação local.
Os resultados sugeriram sinais de menor perda de cartilagem e redução de marcadores inflamatórios em pacientes tratados com eletroacupuntura. Houve diminuição significativa da intensidade de sinal do tecido adiposo infrapatelar e da profundidade de inflamação sinovial — indicadores associados à atividade inflamatória da doença.
Os próprios autores, porém, adotam cautela.
No artigo, afirmam que "os achados devem ser interpretados como sinais preliminares e não como evidência definitiva de modificação da doença".
A prudência decorre principalmente do curto período de observação das imagens estruturais — apenas seis semanas — e do fato de o estudo não ter sido originalmente planejado para demonstrar alterações anatômicas de longo prazo.
Ainda assim, especialistas consideram a hipótese relevante porque a medicina enfrenta uma limitação persistente: não existem terapias aprovadas capazes de impedir a progressão estrutural da osteoartrite do joelho.
"Os achados devem ser interpretados como sinais preliminares e não como evidência definitiva de modificação da doença".
Outro aspecto que chamou atenção foi o desempenho relativamente elevado do grupo placebo. Mesmo pacientes submetidos à acupuntura simulada apresentaram melhora acima do limiar considerado clinicamente importante.
Segundo os pesquisadores, isso ilustra uma característica conhecida da acupuntura: seu efeito envolve componentes biológicos, psicológicos e contextuais difíceis de separar completamente.

No artigo, os autores observam que a interação entre paciente, terapeuta e ambiente terapêutico pode produzir efeitos reais sobre sintomas de dor crônica. Mas destacam uma diferença importante: enquanto a melhora sintomática apareceu também no grupo placebo, sinais estruturais nas imagens surgiram apenas entre aqueles submetidos à eletroacupuntura real.
Em termos de segurança, os resultados foram tranquilizadores. Apenas 5% dos pacientes do grupo tratado relataram eventos adversos leves — principalmente pequenos hematomas e dormência local. Nenhum caso grave foi registrado.
Para uma área frequentemente dividida entre entusiasmo e ceticismo, o estudo acrescenta algo raro: números robustos, metodologia rigorosa e uma tentativa de enxergar além do sintoma imediato.
A grande questão agora não é mais apenas se a eletroacupuntura reduz dor. Os dados sugerem que a próxima pergunta científica pode ser mais ambiciosa: seria possível desacelerar, ainda que parcialmente, a destruição silenciosa de uma articulação?
A resposta, admitem os próprios autores, ainda exigirá anos de acompanhamento e estudos desenhados especificamente para provar isso. Mas a hipótese entrou definitivamente no radar científico.
Referência
Eletroacupuntura para osteoartrite do joelho: um ensaio clínico multicêntrico randomizado controlado avaliando a eficácia sintomática e estrutural. eClinicalMedicineVol. 96 103982 Publicado: 22 de maio de 2026. Pendurar Minghui, Yubo Shao, Wang Lu, Xiao Yun Wang, Hao Xu, Shaohua Chene outros. DOI: 10.1016/j.eclinm.2026.103982